4.5.12


  "O que é um pensamento? Um fenómeno que trai um espírito - o seu quadro - e o que este quadro desejava.
  O ocidental sente, compreende, divide espontaneamente por dois, menos vezes por três e subsidiariamente por quatro. O hindu divide antes por cinco ou seis, ou dez, ou doze, ou trinta-e-dois, ou mesmo sessenta-e-quatro. É extremamente prolixo. Nunca concebe uma situação ou um tema em três ou quatro subdivisões (não é preciso dizer que a nossa divisão por 2 ou 3 tão-pouco corresponde a uma realidade. «Seres animados, inanimados, quente e frio, quem enjoa, quem não enjoa». Se bem que as ciências físicas, naturais, nos tenham demonstrado e nós saibamos que as coisas não se passam com tanta simplicidade, continuamos a usar a divisão por 2, prontos a acompanhar a nossa divisão de corolários, ou de restrições do género «sim, mas», «contudo», «também»).
  Gautama, um espírito no entanto contemplativo, exprime assim a sua primeira iluminação:
  Da ignorância vêm os Sankaras.
  Dos Sankaras vem a consciência.
  Da consciência vêm nome e forma.
  De nome e forma vêm as seis províncias.
  Das seis províncias vem o contacto.
  Do contacto vem a sensação.
  Da sensação vem a sede.
  De sede vem o apego.
  Do apego vem a existência.
  Da existência vem o nascimento.
  Do nascimento vêm a velhice, a morte, o desgosto, as lamentações, o sofrimento, o abatimento, o desespero.
  Um pouco mais tarde (ver Digha and Maghima Nahaya) refuta as sessenta-e-duas heresias primordiais que dizem respeito ao Ser.
  Já um silogismo ou um encadeamento de três termos lhe parece pouco seguro. É algo em que não pode confiar. Ao hindu, mesmo iluminado, são-lhe precisos pelo menos nove, onze, quarenta e mais.
  Ele nunca é simples, nunca natural; é sempre aplicado.
  Quando se vê um desses pensamento em quarenta pontos, o que é que isso prova? Pois bem, prova que o autor está contente, que conseguiu encher o quadro do seu espírito.
  Tão-pouco se trata de um refinamento. Uma subtileza, um fulgor súbito desconcertam o indiano; fica à espera do resto.
  Para ele, só contam o conjunto, a ligação. E o assunto importa pouco. Quer se trate de livros de religião ou de tratados de amor, há sempre quinze ou vinte proposições, com reencadeamentos parciais. Parecem que se ouvem escalas, imensas escalas."

Henri Michaux, Um Bárbaro na Ásia
(Fenda, 1997)

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