– Dois prémios.
– Não, foram três, três prémios.
– Três? Três prémios? Como assim?
– Assim, três. Foram três prémios.
– Só me lembro de dois, dois prémios, não três.
– Pois eu lembro-me de três e olhe que já não me lembro da
última vez em que enganei, portanto foram três. Três prémios.
– Não se lembra? Pois bem, eu nunca me enganei. De resto,
como poderia lembrar-me do que não aconteceu?
– Não duvido, mas fique a saber que eu ainda me lembro de
uma festa que a minha mãe deu - minha
querida mãe, minha pobre mãe, coitada, que tanto sofreu para me dar à luz, a
mim, que sempre fui uma criança muito difícil, diziam-me – uma festa, isto é,
coisa pequena e íntima, intimista como se diz por aí, só para os amigos mais próximos, uns cinquenta
na altura, se a memória não me falha, para celebrar o nascimento do meu
primeiro dente. Ainda hoje o tem guardado e quando sabe que eu vou viajar - eu
viajo muito, sabe? estou sempre a viajar, na verdade, não faço outra coisa
senão viajar, viajo todos os dias, viajo
de manhã, de tarde e à noite, adormeço a viajar e acordo ainda em viagem, diria
que vivo num estado de viagem, que sofro deste mal como se de uma doença se tratasse, viajante crónico, porque não? Então, homem, como é que
está? Em viagem, eu estou em viagem, respondia aos amigos. Aos poucos, foram desistindo de perguntar – a minha mãe, dizia eu, adormece com ele, com o primeiro
dentinho, o precoce, debaixo da almofada.
– Meu amigo, meu quero amigo, meu ilustre amigo, a quem eu
conheci por acaso, ou terá sido o destino? ia eu um dia distraído no recreio do colégio, quando
tropecei, caí, e dei de nariz com o seu cartão de aluno, eu no último ano,
finalista, a um passo do ensino superior, pêlos no peito e barba rija, um homem
feito, portanto, os meus pais orgulhosos, os amigos dos meus pais orgulhosos,
os amigos dos amigos dos meus pais orgulhosos e por aí em diante, e o meu
digníssimo amigo, ainda uma criança na altura, magro, magrinho, comidinho das
carnes e ossudo como nunca havia visto, e tímido, muito tímido, mas sempre com
um olho, o direito, não era? posto no que estava a acontecer - corria até o
boato de que às vezes lhe dava o estrabismo - das bisbilhotices que mais tarde
me viria a contar - quando o deixei ser meu amigo após ter assistido deleitado à sua prestação exemplar, ao seu desempenho Excelente nas provas de aptidão que lhe permitiram, e com toda a justiça, ser admitido como discípulo - às tertúlias dos grandes escritores de que mais tarde lhe
viria a falar, tão curioso e sedento de erudição que o apanhei. Meu amigo, meu
querido amigo, meu digníssimo amigo, dizia eu, isso que me diz do seu passado,
das suas lembranças, é pouco, muito pouco, quase nada, menos do que estas
malditas unhas que arranco à dentada e logo se me cravam na gengiva, aqui mesmo entre os dentes, se comparado,
e não poderei fazê-lo de outro modo senão pela comparação, que outra forma senão
a comparação, àquilo que lhe vou desvendar agora. Não se exalte, ou não se
exalte já, não é segredo nem tão-pouco uma daquelas fresquinhas, em primeira
mão, acabadinhas de sair, até porque tenho muitos, muitíssimos golpes e proezas
de mestre de que me orgulhar, mas, bem vistas as coisas, não posso privá-lo
desta.
Sabe, é que eu ainda me lembro, mas olhe que lembro mesmo,
aliás sinto, estou a sentir aqui, na cabeça, dentro da cabeça, a lembrança,
falo, claro, da lembrança, que estava deitada aqui, junto à nuca, aqui mesmo,
nesta zona, quer tocar? está neste momento sentada e quase poderia apostar que
vai espreguiçar-se. Não, espere, afinal não! Acaba de se levantar, está a
estender as pernas, primeiro uma, depois outra. Olhe, já aí vem e a correr, a
correr sempre em frente, mesmo nesta direcção, assim, de trás para a frente,
quer tocar? Então é o seguinte: eu ainda me lembro das cortinas do quarto de
hospital para onde fui levado depois de me roubarem aos braços de minha mãe,
minha querida mãe, minha amabilíssima mãe, uma senhora, uma grande senhora, por
quem a classe, a classe autêntica, não a que se deixa flagelar pelo roçar
imprevisto da silveira, se sentiu sempre em dívida. Limpas, muito limpas, brancas,
com uma inscrição a azul que se repetia ao longo das várias colunas, as
cortinas do quarto de hospital.
– Isso é sério? É a verdade? Não me diga! Peço imensas
desculpas pelo meu atrevimento, se é que há perdão para mim, pequeno para
tamanha ousadia. O senhor, o senhor é fascinante, diria um génio. É exactamente
assim, o senhor é Genial, GE-NI-AL, ouviu bem?
– Bom, bom, tenha lá calma, meu querido, ilustríssimo e
digníssimo amigo. Não há necessidade disso, não entre nós, que temos vindo ao
longo do tempo a tornar-nos ainda mais próximos e cúmplices, pois não? E não
deixa de ser estranho, porque eu pensava, pensava realmente, pensava bem, de
resto como penso sempre, que lhe havia ensinado isto e quase tudo. Mas, por
outro lado, como seria se lhe tivesse ensinado tudo, tudo aquilo que eu sei?
Não se atormente, meu amigo, chegará o dia em que saberá quase tanto como eu e
será com muito, muitíssima pena minha, que já cá não estarei para assistir a
isso.
– Diga-me, é então impossível que eu me lembre, por
exemplo, de ouvir a voz da minha mãe, minha querida mãe, estava eu na sua
barriga, prestes a ver a luz, a vida, num momento que foi tão doloroso para
ela, eu sempre fui uma criança muito difícil, sabe? Lindo, menino lindo, bem
pequenino e já tão lindo. Serás ainda mais lindo e esperto, muito esperto, mais
do que todos os outros, esperto à tua própria maneira, mas esperto, muito
esperto. Triunfarás assim na vida, ai de ti que não triunfes, não, tu vais
triunfar, és muito, muito esperto e os meninos espertos triunfam sempre, dê por
onde der.
– Delírios seus, homem, delírios seus.
– Pois, é possível e, sendo assim, provável.
– Bem, tire lá esse ar cabisbaixo, de desânimo. Se prefere, foram três prémios.
– Sim, três prémios. Foram três prémios.
Helena
