23.5.12



– Dois prémios.

– Não, foram três, três prémios.

– Três? Três prémios? Como assim?

– Assim, três. Foram três prémios.

– Só me lembro de dois, dois prémios, não três.

– Pois eu lembro-me de três e olhe que já não me lembro da última vez em que enganei, portanto foram três. Três prémios.

– Não se lembra? Pois bem, eu nunca me enganei. De resto, como poderia lembrar-me do que não aconteceu?

– Não duvido, mas fique a saber que eu ainda me lembro de uma festa que a minha mãe deu -  minha querida mãe, minha pobre mãe, coitada, que tanto sofreu para me dar à luz, a mim, que sempre fui uma criança muito difícil, diziam-me – uma festa, isto é, coisa pequena e íntima, intimista como se diz por aí,  só para os amigos mais próximos, uns cinquenta na altura, se a memória não me falha, para celebrar o nascimento do meu primeiro dente. Ainda hoje o tem guardado e quando sabe que eu vou viajar - eu viajo muito, sabe? estou sempre a viajar, na verdade, não faço outra coisa senão viajar, viajo todos os dias,  viajo de manhã, de tarde e à noite, adormeço a viajar e acordo ainda em viagem, diria que vivo num estado de viagem, que sofro deste mal como se de uma doença se tratasse, viajante crónico, porque não? Então, homem, como é que está? Em viagem, eu estou em viagem, respondia aos amigos. Aos poucos, foram desistindo de perguntar – a minha mãe, dizia eu, adormece com ele, com o primeiro dentinho, o precoce, debaixo da almofada.

– Meu amigo, meu quero amigo, meu ilustre amigo, a quem eu conheci por acaso, ou terá sido o destino? ia eu um dia distraído no recreio do colégio, quando tropecei, caí, e dei de nariz com o seu cartão de aluno, eu no último ano, finalista, a um passo do ensino superior, pêlos no peito e barba rija, um homem feito, portanto, os meus pais orgulhosos, os amigos dos meus pais orgulhosos, os amigos dos amigos dos meus pais orgulhosos e por aí em diante, e o meu digníssimo amigo, ainda uma criança na altura, magro, magrinho, comidinho das carnes e ossudo como nunca havia visto, e tímido, muito tímido, mas sempre com um olho, o direito, não era? posto no que estava a acontecer - corria até o boato de que às vezes lhe dava o estrabismo - das bisbilhotices que mais tarde me viria a contar - quando o deixei ser meu amigo após ter assistido deleitado à sua prestação exemplar, ao seu desempenho Excelente nas provas de aptidão que lhe permitiram, e com toda a justiça, ser admitido como discípulo - às tertúlias dos grandes escritores de que mais tarde lhe viria a falar, tão curioso e sedento de erudição que o apanhei. Meu amigo, meu querido amigo, meu digníssimo amigo, dizia eu, isso que me diz do seu passado, das suas lembranças, é pouco, muito pouco, quase nada, menos do que estas malditas unhas que arranco à dentada e logo se me cravam na gengiva, aqui mesmo entre os dentes, se comparado, e não poderei fazê-lo de outro modo senão pela comparação, que outra forma senão a comparação, àquilo que lhe vou desvendar agora. Não se exalte, ou não se exalte já, não é segredo nem tão-pouco uma daquelas fresquinhas, em primeira mão, acabadinhas de sair, até porque tenho muitos, muitíssimos golpes e proezas de mestre de que me orgulhar, mas, bem vistas as coisas, não posso privá-lo desta.

Sabe, é que eu ainda me lembro, mas olhe que lembro mesmo, aliás sinto, estou a sentir aqui, na cabeça, dentro da cabeça, a lembrança, falo, claro, da lembrança, que estava deitada aqui, junto à nuca, aqui mesmo, nesta zona, quer tocar? está neste momento sentada e quase poderia apostar que vai espreguiçar-se. Não, espere, afinal não! Acaba de se levantar, está a estender as pernas, primeiro uma, depois outra. Olhe, já aí vem e a correr, a correr sempre em frente, mesmo nesta direcção, assim, de trás para a frente, quer tocar? Então é o seguinte: eu ainda me lembro das cortinas do quarto de hospital para onde fui levado depois de me roubarem aos braços de minha mãe, minha querida mãe, minha amabilíssima mãe, uma senhora, uma grande senhora, por quem a classe, a classe autêntica, não a que se deixa flagelar pelo roçar imprevisto da silveira, se sentiu sempre em dívida. Limpas, muito limpas, brancas, com uma inscrição a azul que se repetia ao longo das várias colunas, as cortinas do quarto de hospital.

– Isso é sério? É a verdade? Não me diga! Peço imensas desculpas pelo meu atrevimento, se é que há perdão para mim, pequeno para tamanha ousadia. O senhor, o senhor é fascinante, diria um génio. É exactamente assim, o senhor é Genial, GE-NI-AL, ouviu bem?

 – Bom, bom, tenha lá calma, meu querido, ilustríssimo e digníssimo amigo. Não há necessidade disso, não entre nós, que temos vindo ao longo do tempo a tornar-nos ainda mais próximos e cúmplices, pois não? E não deixa de ser estranho, porque eu pensava, pensava realmente, pensava bem, de resto como penso sempre, que lhe havia ensinado isto e quase tudo. Mas, por outro lado, como seria se lhe tivesse ensinado tudo, tudo aquilo que eu sei? Não se atormente, meu amigo, chegará o dia em que saberá quase tanto como eu e será com muito, muitíssima pena minha, que já cá não estarei para assistir a isso.

– Diga-me, é então impossível que eu me lembre, por exemplo, de ouvir a voz da minha mãe, minha querida mãe, estava eu na sua barriga, prestes a ver a luz, a vida, num momento que foi tão doloroso para ela, eu sempre fui uma criança muito difícil, sabe? Lindo, menino lindo, bem pequenino e já tão lindo. Serás ainda mais lindo e esperto, muito esperto, mais do que todos os outros, esperto à tua própria maneira, mas esperto, muito esperto. Triunfarás assim na vida, ai de ti que não triunfes, não, tu vais triunfar, és muito, muito esperto e os meninos espertos triunfam sempre, dê por onde der.

– Delírios seus, homem, delírios seus.

– Pois, é possível e, sendo assim, provável.

– Bem, tire lá esse ar cabisbaixo, de desânimo. Se prefere, foram três prémios.

– Sim, três prémios. Foram três prémios.



Helena


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