30.5.12

O Homem da Cidade


Primeiro veio o cansaço.
Um cansaço que não se lembrava de sentir na cidade dos homens,
perto dos homens,
atrás dos homens,
aos saltinhos para tentar apanhar com a  boca o ar que respiravam,
pedindo-lhes autorização para voltar a usar o seu ar,
e concentrando toda a energia nessa tarefa.

- Não se preocupe, senhor, que eu não me aproximo muito. Isso, pode continuar a caminhar assim, alto, muito alto, todo esticado, olhar fixo para não falhar ao firme intento, que eu cá me arranjo. Só preciso de ir atrás de si. Não sei se tão depressa, mas cá me arranjo. Posso correr. Verá como logo me ponho a arfar. Se preferir, eu paro de correr quando me parecer, ao vê-lo inclinar os ombros, que há em si a suspeita de que alguém o persegue. Mas o senhor não inclina muito pois ombros, pois não?
Se preferir, eu escondo-me quando me parecer, ao vê-lo virar a cabeça, que vai olhar para trás. Mas o senhor não vira muito a cabeça nem tão-pouco olha para trás, pois não?
Posso até ajoelhar-me quando me parecer que vai não só virar a cabeça e olhar para trás, como para baixo. Assim não chegará a ver-me e será como se eu nunca tivesse existido. Mas o senhor não olha muito para baixo, pois não?
Deixe lá, eu cá me arranjo.

Caminhar era sentir os braços, fazê-los obedecer a um movimento para evitar que a carcaça se desmanchasse.

Mais tarde, veio a confusão com os nomes.
As árvores já não eram árvores mas coisas altas, muito altas, não tão altas como os homens - como lhes cobiçavam a altivez, deslocavam-se e ainda assim conseguiam manter-se imperturbáveis, um dia havemos de ser como eles, ainda maiores do que eles, que precisarão de se reunir e erguer uns sobre os outros para alcançar metade do nosso tronco, e felizes com isso, pois em vez de muitas, terão uma possibilidade - e castanhas, algumas estreitas outras largas, e que serviam para ele apoiar as costas. Só por isso estavam ali, bem como os pássaros, que já não eram pássaros mas coisas que preferiram o céu à terra, quase podendo ser homens como os que perseguira, e que por essa semelhança serviam para o distrair. Só por isso estavam ali, bem o rio, que já não era rio mas água como a que saía da torneira lá de casa, agora correndo na horizontal, e que servia para tirar a sede.
Era mais simples na cidade, onde com uma palavra, duas se o auditório fosse do tipo desconfiado, resolvia de uma vez e em pouco tempo o assunto.
Mas não se lembrava dessas palavras.
Por fim veio a troca de membros.
Tinha sede.
Aproximou-se da água igual à lá de casa mas sem torneira e correndo agora na horizontal, e em vez de usar a boca, pareceu-lhe que o nariz seria mais adequado ao propósito, dada a sua forma natural. Quando regressou ao juízo, era tarde. Deixou-se ficar prostrado no chão, tentando adivinhar as consequências que poderão advir de uma circulação errada.

Não, assim não podia ser.
Voltou para a cidade e instalou-se confortavelmente atrás dos homens,
pedindo-lhes permissão para voltar a usar o seu ar,
e concentrando toda a energia nessa tarefa.


Helena

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