3.6.12


"Em geral as coisas não são como as vemos e sentimos, mas como Ciguri no-las ensina. Desde sempre se encontram dominadas pelo Mal, pelo Mau Espírito, e sem Ciguri não é possível que o homem regresse à Verdade. Ao princípio eram verdadeiras, mas quanto mais velhos ficamos mais falsas se fazem, porque o Mal se mete no caso mais a fundo. Ao princípio o mundo era bastante real, ressoava dentro e a par do coração do homem. Agora o coração já lá não está, e a alma também não porque Deus saiu dela. Ver as coisas era ver o Infinito. Agora se olho a luz não me é fácil pensar em Deus. No entanto, foi ele, Ciguri, foi quem tudo fez. Mas o Mal existe em todas as coisas e eu, homem, já não sei sentir-me puro. Há em mim qualquer coisa horrível que vem ao de cima e não é minha mas a treva que existe dentro de mim, no ponto em que a alma do homem não sabe onde começa nem termina o Eu, nem aquilo que o deixou começar assim como hoje se vê. Isso mesmo é o que o Ciguri me diz. Com Ele deixo de conhecer a mentira e confundir aquilo que em todo o homem Ele realmente quer com aquilo que não quer, mas imitando o ente do mau-querer. E pouco depois só resta isso - diz ele recuando vários passos -: a obscena máscara dos que riem entre esperma e caca."

Antonin Artaud, Os Tarahumaras
(Relógio D'Água, 2000)

Arquivo do blogue