19.6.12

As Minhas Propriedades

   "Nas minhas propriedades tudo é plano, nada se move; e se há uma forma aqui ou acolá, donde é que vem a luz? Sombra, nenhuma.
  Por vezes, quando tenho tempo, eu observo, contendo a respiração; espreito e, se vejo emergir alguma coisa, disparo como uma bala e salto sobre o local, mas a cabeça, pois o mais frequente é ser a cabeça, volta a enfiar-se no pântano. Escavo com força: é lama, lama da mais ordinária, ou então areia, areia...
  Também não dão para um belo céu. Embora não haja nada por cima, ao que parece, há que andar curvado como num túnel baixo.
  Estas propriedades são as minhas únicas propriedades, e eu aqui moro desde a infância, e posso dizer que bem pouca gente possui propriedades mais pobres.
  Já quis, algumas vezes, lá fazer belas avenidas, um belo parque...
  Não que eu goste de parques, mas... apesar de tudo...
  Outras vezes (é mania que eu tenho, constante, e que renasce depois de todos os fracassos) vejo na vida exterior ou num livro ilustrado um animal de que gosto, por exemplo uma garça branca, e digo cá para comigo: Isto, isto é que ficava bem nas minhas propriedades, além disso podia-se multiplicar, e começo a tomar muitas notas e a informar-me de tudo o que constitui a vida do animal. A minha documentação torna-se cada vez mais vasta. Mas quando tento levar o animal para a minha propriedade, faltam-me sempre alguns órgãos essenciais. Debato-me. Pressinto já que aquilo vai falhar outra vez; e quanto a multiplicar-se, nas minhas propriedades não há multiplicação, sei-o bem demais. Ocupo-me da alimentação do recém-chegado, do seu ar, planto árvores para ele, semeio verdura, mas são de tal raça as minhas detestáveis propriedades que, se volto a olhar, ou me chamam lá fora um instante, quando volto já nada existe, ou quanto muito uma certa camada de cinza que revelaria, talvez, um último talo de erva requeimado... talvez...
  E se me obstino, não é por parvoíce. Mas que fazer de cem mil lápis num campo? Não é apropriado, nem sequer com cem mil desenhadores.
  Bem, mas enquanto trabalho para formar um desenhador (e quanto tenho, tenho cem mil) eis que os meus cem mil lápis desapareceram.
  E se, para o dente, preparo um maxilar, um aparelho digestivo e de excreção, mal o ponho a funcionar, ao introduzir o pâncreas e o fígado, já os dentes desapareceram, dali a pouco o maxilar, depois o fígado, e quanto chego ao ânus só ficou o ânus, o que me enjoa, pois se é preciso voltar pelo cólon, o intestino fino, e de novo pela vesícula biliar e outra vez, outra vez, por tudo, então não. Assim não.
  À frente e atrás aquilo eclipsa-se logo, não pode aguardar um instante.
  É por isso que as minhas propriedades estão sempre absolutamente desertas de tudo, à excepção de um ser, ou de uma série de seres, o que de resto só agrava a pobreza geral, e faz um reclamo monstruoso e insuportável à desolação geral.
  Então, suprimo tudo, e ficam só os pântanos, sem mais nada, pântanos que são a minha propriedade e que me querem desesperar.
  E, se teimo, não sei realmente por que o faço.
  Mas, por vezes, a coisa anima-se, a vida remexe. É visível, é certo. Sempre pressentira que havia algo ali, sinto-me cheio de entusiasmo. Mas eis que, do exterior, surge uma mulher. E macerando-me com prazeres incontáveis, mas tão seguidos que tudo não passa dum instante, levando-me nesse instante a dar muitas, muitas vezes a volta ao mundo... (Eu, por mim, não me atrevi a pedir-lhe para visitar as minhas propriedades, no estado de pobreza em que se encontram, numa quase inexistência). Bem! por outro lado, rapidamente extenuado de tantas viagens em que nada entendo, e que foram apenas um perfume, eu fujo dela, amaldiçoando mais uma vez as mulheres, completamente perdido no planeta, choro pelas minhas propriedades que não são nada, mas que representam apesar de tudo um terreno familiar, e não me dão essa impressão de absurdo que encontro por toda a parte.
  Passo semanas à procura do meu terreno, humilhado, sozinho; nessas alturas, podem injuriar-me como quiserem.
  Aguento-me graças à convicção de que é impossível não encontrar o meu terreno e, com efeito, certo dia, mais tarde ou mais cedo, aí está ele!
  Que felicidade regressarmos ao nosso terreno! Tem um aspecto que, na verdade, nenhum outro tem. Houve algumas mudanças, parece-me um pouco mais inclinado, ou mais húmido, mas o grão de terra é o mesmo.
  É possível que não haja abundantes colheitas. Mas, que querem? Esse grão diz-me coisas. Se, no entanto, me aproximo, ele confunde-se com a massa - massa de pequenas baforadas.
  Que importa? Trata-se, nitidamente, do meu terreno. Não sei explicar, mas confundi-lo com outro seria como confundir-me com outrem, o que não é possível.
  Há o meu terreno e eu; para além disso, há o estrangeiro.
  (...)"

Henri Michaux, As Minhas Propriedades
(Fenda, 1998)

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