Saíram algumas barcas à pesca de mexilhão, na maré baixa; reconheci um arrais com quem já tinha acamaradado, e fiz outras observações. Mas, em suma, em relação ao tempo que ali passei, fiz pouco.
E de repente, pelas oito horas, apercebi-me de que todo aquele espectáculo que eu contemplara durante o dia fora apenas uma emanação do meu espírito. E fiquei bem satisfeito, pois, justamente, tinha-me culpado, pouco antes, de passar os dias sem fazer nada.
Fiquei por isso contente, e visto ser apenas um espectáculo vindo da minha mente, preparava-me para fazer desaparecer aquele horizonte que me obcecava. Mas estava muito calor e, sem dúvida, eu estava muito enfraquecido, pois não conseguia nada. O horizonte não diminuía e, longe de escurecer, tinha uma aparência talvez mais luminosa do que anteriormente.
Eu caminhava, caminhava.
E quando as pessoas me cumprimentavam, olhava-as desnorteado, dizendo para comigo: «Seria conveniente tapar este horizonte, ele ainda vai envenenar-me a vida...» e assim cheguei para jantar ao Hotel de Inglaterra, e aí ficou bem claro que eu estava realmente em Honfleur, o que não me servia de nada.
Pouco importava o passado. Caíra a noite e, apesar disso, o horizonte ali continuava, idêntico ao que se mostrara hoje, durante horas a fio.
A meio da noite desapareceu repentinamente, cedendo um tão súbito lugar ao nada, que eu quase tive saudades dele."
Henri Michaux, As Minhas Propriedades
(Fenda, 1998)
