" - Pois é, estou a desviar-me muito da minha história - começou ele. - Tenho pensado tanto, vejo agora as coisas de um ângulo tão diferente que sinto grande vontade de dizer tudo isto. Ora bem, começámos portanto a viver na cidade. A cidade é melhor para as pessoas infelizes. Na cidade, uma pessoa pode viver cem anos e não reparar que já morreu há muito e apodreceu. Não temos tempo de pensar em nós, estamos totalmente ocupados. Negócios, relações públicas, saúde, artes, saúde e educação das crianças, receber as visitas destes e daqueles, visitar outros, é preciso ver a actriz tal, ouvir o canto ou a cantora tal. Na cidade pode aparecer a qualquer momento uma ou mesmo duas celebridades que é impensável perder. É preciso tratar da nossa saúde, ou da saúde deste ou daquele; eles são os preceptores, as preceptoras, os professores... e no entanto a vida é vazia, vazia. Por isso, na cidade, eu e ela sentíamos menos a dor da convivência. Além disso, nos primeiros tempos, distraía-nos um maravilhoso passatempo: a instalação numa cidade nova, numa casa nova, as constantes mudanças da cidade para a aldeia e da aldeia para a cidade.
Passou-se um Inverno, chegou outro, e então, deu-se a aparentemente insignificante circunstância, imperceptível para todos, que acabaria por desembocar no que finalmente aconteceu. Ela estava adoentada e os canalhas proibiram-na de ter filhos, ensinando-lhe um método para isso. Para mim era uma situação abominável. Lutei contra isso, mas ela, com leviana teimosia, levou a sua avante; eu resignei-me. Fora-nos tirada a última justificação para a vida suína, os filhos, e a vida tornou-se ainda mais nojenta.
O mujique, o trabalhador, precisa de filhos, embora lhe seja difícil alimentá-los, e por isso as suas relações conjugais têm uma justificação. Ora nós, quando temos alguns filhos, não precisamos de mais, são uma preocupação acrescida, mais despesas, são co-herdeiros, são um fardo. E deixamos de ter justificação para a nossa vida suína. Ou nos libertamos artificialmente dos filhos, ou vemos os filhos como uma desgraça, como consequência de um descuido, o que é ainda mais repugnante. Deixa de haver justificações. Mas a nossa queda moral é tão profunda que nem sequer vemos necessidade de justificação. A maioria do mundo culto actual entrega-se a esta depravação sem o mínimo remorso."
Lev Tolstói, A Sonata de Kreutzer
(Relógio D'Água, 2010)
