"A forma como Watt andava quando se dirigia para leste, por exemplo, consistia em virar o busto o máximo possível para norte, lançando simultaneamente a perna direita o máximo possível para sul e, depois, virar o busto o máximo possível para sul, lançando simultaneamente a perna esquerda o máximo possível para norte, e, depois, de novo, virar o busto o máximo possível para norte, lançando a perna direita o máximo possível para sul, e depois, virar o busto o máximo possível para sul, lançando a perna esquerda o máximo possível para norte, e por aí fora, sucessivamente, repetidamente, até chegar ao destino e poder sentar-se. Assim, apoiando-se primeiro numa perna, e, depois, na outra, seguia em frente, impetuoso tardígrado, em linha recta. Nessas ocasiões, os joelhos não se dobravam. Podiam dobrar, mas não dobravam. Não havia joelhos que dobrassem melhor do que os de Watt quando lhes dava para aí, os joelhos dele não tinham qualquer defeito, contra o que parecia. Mas ao andar na rua, por motivo obscuro, não dobravam. Apesar disso, os pés assentavam em cheio no chão, calcanhar e sola juntos, e era com manifesta repugnância que o abandonavam, para se lançarem nos inexplorados caminhos aéreos. Os braços, esses, satisfeitos, balançavam em perfeita equipendência."
Samuel Beckett, Watt
(Assírio & Alvim, 2005)
