26.7.12


"(...) A obra que decidi escrever ainda não está escrita, ou apenas o está parcialmente. Só para levantar a minha voz, para falar à minha maneira, tive de lutar por cada palmo do caminho. E o canto quase fica esquecido sob o peso do combate. Falai agora do olhar cansado que murcha as flores e empalidece as estrelas! O meu olhar tornou-se positivamente corrosivo; é um milagre que as flores e as estrelas não se desfaçam em pedaços debaixo da impiedade dos meus olhos. E, quanto ao íntimo do meu ser, ponto final. Quanto às regiões mais superficiais, bom, digamos que o homem exterior aprendeu gradualmente a acomodar-se aos hábitos do mundo. Consegue estar nele sem ser dele. Consegue ser amável, agradável, caridoso, hospitaleiro. E porque não? "A verdadeira questão", como fez notar Rimbaud, "é tornar a alma monstruosa". Ou seja, não hedionda, mas sim prodigiosa! Afinal, que significa monstruoso? De acordo com os dicionários é "forma de vida organizada notoriamente malformada seja por falta, excesso, distorção ou posição anormal de partes ou órgãos; por extensão, tudo o que é horrível ou anormal ou composto por elementos ou características inconsistentes, causando ou não repulsa?. A raiz é a do verbo latino moneo, que significa avisar. Na mitologia, o monstruoso reconhece-se em formas como as harpias, as górgonas, a esfinge, o centauro, as dríades ou as sereias. Todas estas formas são prodigiosas e é essa a significação essencial da palavra. Formas que perturbam a norma, o equilíbrio. E que significado pode isto ter, a não ser o do medo próprio da pequenez humana. As almas tímidas vêem constantemente monstros que se lhes atravessam no caminho e tanto lhes chamam hipogrifos como hitlerianos. O maior pavor do homem é a expansão da consciência. Tudo o que a mitologia contém de aterrador, de arrepiante, nasce desse medo. "Deixai-nos viver em paz e harmonia", implora o homem, na sua pequenez. Mas a lei do universo impõe que a paz e a harmonia só possam ser alcançadas por meio da luta interior. A pequenez humana não quer pagar o preço dessa paz e dessa harmonia. Gostaria de tê-la já pronta, como no pronto-a-vestir."

Henry Miller, O Tempo dos Assassinos
(Hiena Editora, 1985)

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