Arrasta-se pesada sobre a modesta calçada de pedra, roça, fere-se na fachada amarelo desmaiado da humilde capelinha lugar de eternos reencontros. Quatro passos em pendor vertiginoso, olha de esguelha o bicho que brinca no asfalto. De um lado e do outro, puxam.
Arrancam, arrancam, arrancam.
Pouco sobra do que antes formas corporais, é plástico amolgado pano ardido papel comprimido. Eixo ilimitado em dimensão idealizada.
Esvoaça, escapam-lhe as referências. Tempo e espaço, lendas de geração mesquinha por devoção, ruídos de lavadeiras desocupadas e criativas, doutrina para aprendiz indiferente e deformável.
Agarra-o a mão galante no parapeito.
Talvez não o agarre, a ela, antes faça-se, queira-se agarrada como quem quer o que não sabe mas sabe que quer. Que importa? Importa. Mas não agora.
Na mão, é aberta, exposta, desnudada. Mais ar, mais vincos. Marcas e, por isso, perenes. Adormece no regaço, a viagem foi longa e dói-lhe a alma. Descansa as pálpebras ainda a tempo de sentir a mão afagar-lhe ternamente a madeixa de cabelo que enfeita a testa e alonga o rosto. Ainda a tempo de escutar sons que parecem provir de palavras meigas. Ainda a tempo de conhecer a lavanda prometida. Ainda a tempo de não desejar outra coisa senão repouso.
Enfim, repouso.
E logo agora que já havia mão. Tarde demais.
Com vermelho te escrevo.
Com vermelho te morro.
Helena
16.02.10
