17.5.11

"... Imensos obstáculos rodeiam os grandes prazeres do homem, não os gostos de pormenor, mas os sistemas que transformam em hábito as mais raras sensações, as resumem e fertilizam criando-lhes uma vida dramática na sua vida, exigindo uma exorbitante e rápida dissipação de forças. A Guerra, o Poder, as Artes são corrupções postas também longe do alcance humano, tão profundas como o é a libertinagem, e todas são de acesso difícil. Uma vez, porém, que o homem empreende o assalto desses grandes mistérios, não caminha num mundo novo? Os generais, os ministros, os artistas são todos mais ou menos impelidos para a dissolução pela necessidade de opor distracções violentas à sua existência tanto à margem da vida comum. Em suma, a guerra é a orgia do sangue, como a política é a dos interesses. Todos os excessos são iguais. Essas monstruosidades sociais possuem a fascinação dos abismos, atraem-nos como Santa Helena chamava Napoleão; causam vertigens, fascinam e queremos conhecer-lhes o fundo sem sabermos porquê. A sensação do infinito existe talvez nesses precipícios...
... Tornado realidade as fabulosas personagens que, segundo a lenda, venderam a alma ao diabo para alcançar o poder de praticar o mal, o dissipador trocou a sua morte contra todos os gozos da vida, mais abundantes, mais fecundos! Em vez de correr durante muito tempo entre duas margens monótonas, no fundo de um armazém ou de um escritório, a existência referve e corre como uma torrente. Em suma, a libertinagem é, sem dúvida, para o corpo o que são para a alma os prazeres místicos. A embriaguez mergulha-nos em sonhos cujas fantasmagorias são tão curiosas como o podem ser as do êxtase...
... Durante essas horas avinhadas, os homens e as coisas comparem perante nós vestidos com as nossas librés. Rei da criação, o homem transforma-as a seu talante..."

A Pele de Chagrém, de Honoré de Balzac (1831)

Arquivo do blogue