"Depois de ter verificado que ninguém me via, mergulhei naquelas costas como uma criança que se atira ao seio da mãe e pus-me a beijar aqueles ombros, roçando-os com a cabeça.
Aquela mulher soltou um grito agudo, que a música não deixou ouvir. Voltou-se, viu-me e disse:
- Senhor!
Ah! Se ela tivesse dito: «Meu rapazinho, o que é que lhe deu?», talvez a tivesse morto, mas àquele senhor!, senti as lágrimas queimarem-me os olhos. Fiquei petrificado por um olhar animado de justa cólera, por uma cabeça sublime coroada por um diadema de cabelos cendrados, em harmonia com aqueles ombros de paixão. A púrpura do pudor ofendido iluminou-lhe o rosto, logo desarmado pelo perdão da mulher que compreende um frenesi, quando é ela a sua causa, e adivinha infinita adoração nas lágrimas de arrependimento. Foi-se embora com ar de rainha. Senti então o ridículo da minha situação, porque só então compreendi que estava ataviado como o macaco de um saboiano. Envergonhei-me de mim próprio. Fiquei completamente sucumbido, saboreando a maçã que acabava de roubar, conservando nos lábios o calor daquele sangue que eu havia aspirado e seguindo com o olhar aquele mulher caída do céu.
Arrebatado pelo primeiro aspecto carnal do grande ardor do coração, errei no baile agora deserto, sem poder encontrar a minha desconhecida. Fui deitar-me metamorfoseado."
Balzac, O Lírio no Vale
