"O homem absurdo é solicitado num determinado ponto do seu caminho. Não faltam à história religiões nem profetas, mesmo sem deuses. Pede-se-lhe que mergulhe. Tudo o que ele pode responder é que não compreende bem, que isso não é evidente. Ele só quer, justamente, fazer aquilo que compreende. Asseguram-lhe que é pecado de orgulho, mas ele não entende a noção de pecado; garantem-lhe que talvez o inferno esteja no termo da jornada, mas ele não tem imaginação bastante para prefigurar esse estranho futuro; dizem-lhe que perde a vida imortal, mas isso parece-lhe fútil. Gostariam de o levar a reconhecer a sua culpabilidade. Ele sente-se inocente. A falar verdade, ele só sente isso, a sua inocência irreparável. É ela que lhe permite tudo. Assim, o que ele exige de si próprio é viver somente com aquilo que sabe, governar-se com o que existe e nada fazer intervir que não seja certo. Respondem-lhe que nada é certo. Mas isso ao menos, é uma certeza. Com ela, trava a sua partida: quer saber se é possível viver sem apelo."
O Mito de Sísifo, de Albert Camus
(Editora Livros do Brasil, 2007)
