"De resto, que bem que aqui se estava quando o patrão se encontrava fora. Um patrão assim, por mais afável que fosse, continuava sempre a ser causa de constantes cuidados. Se estava de bom humor, tínhamos sempre medo de que pudesse acontecer alguma coisa e a bonomia do chefe se convertesse logo no seu contrário. Se estava agressivo e mordaz, tínhamos o dever mais do que amargo de nos tomarmos por um trapaceiro torpe, porque involuntariamente nos veríamos como a causa miserável da má disposição. Se estava sereno e composto, restava-nos a tarefa de não infligir o mais pequeno dano a esta harmonia, para não a ferir com uma qualquer fenda ou frincha. Se o patrão se sentia espirituoso, saltávamos logo como um caniche, pois agora era questão de imitar este divertido animal e apanhar agilmente com a boca os chistes e gracejos. Se era caridoso, sentíamo-nos uns miseráveis, se era grosseiro, tínhamos a obrigação de sorrir."
Robert Walser, O Ajudante
(Relógio D'Água, 2006)
