"Neste país não se servem das mulheres. Quando querem gozar descem à água, e aproxima-se então deles um ser algo parecido com a lontra, embora maior, mais flexível ainda (e já viram uma lontra a entrar na água? entra nela como uma mão); chegam-se a ele estes seres e disputam-no, enrolam-se nele, e de tal modo se atropelam que, se não estivesse munido de flutuadores de madeira leve, o homem afogava-se em picada, por melhor nadador que fosse, e ficaria feito em postas, se ouso dizê-lo, no leito do rio. O tal animal cola-se a ele como uma cinta e não o larga de boa vontade.
O que é deveras sedutor nestes animais é a macieza unida à força. O homem encontra, finalmente, alguém mais forte do que ele.
Os ricos criam-nos em seu proveito, e para o dos seus convidados.
Demarcam-se também águas livres onde as crianças se podem banhar.
Quanto aos jovens casadoiros, é preciso estar alerta com eles nas primeiras vezes que vão ao rio, pois de prazer e de súbito espanto perdem rapidamente as forças, deixando-se arrastar para o fundo.
Sabe-se como a água é traiçoeira nestes casos. É preciso, quando estiverem desmaiados, retirá-los da água por meio de varas de salto.
A natureza do prazer é como a do nosso, mas não há nada para as mulheres. Porém, como de resto em toda a parte, os homens fazem-nas mães e deitam-nas à sua direita na cama."
Henri Michaux, As Minhas Propriedades
(Fenda, 1998)
