Sabes, quando eu era pequena, assim como tu,
pensava que o mar, não um qualquer, mas o que tem ido até àquele rochedo, vês?
Ainda a vontade de o fazer dobrar em arco.
Vem, eu mostro-te.
Que este mar, dizia, havia conseguido não só cavar,
como subir até aqui,
e fora por mim que deixara as conchas maiores no cimo das árvores,
presas sabe-se lá como,
para que a chuva não incomodasse enquanto eu levantava cada pedra e via uma cidade diferente,
onde os homens pequenos, muito pequenos, ainda mais do que tu,
iam e vinham à procura de mel e ovos de tartaruga,
e faziam das palmeiras, cestas para os frutos,
da madeira, estátuas
e das sementes, colares,
e trocavam feijão por mandioca,
e dormiam no chão,
sobre folhas e cascas de árvores.
E que atrás daquele tronco, ali à frente, vês? entre os dois mais delgados,
vem, eu mostro-te,
havia outras pedras e outros homens,
maiores dos que ficaram para trás, mas mais pequenos do que tu,
que celebravam numa roda ampla,
as feridas dos corpos em fricção em movimentos ondulantes.
Os retalhos de pele caídos, negros e encarquilhados,
esburacados,
esmagados pelos pés com que haviam partilhado o corpo.
E no centro,
outro homem e outra mulher,
bracejando inusitadamente,
caminhando sobre um círculo desenhado na areia,
com passos longos, com passos certos,
o rosto retraía-se e os olhos engoliam a boca e o nariz pendia e o que havia não era mais do que um enxerto de pele errante,
hirto sabe-se lá como.
Antes de desaparecer,
acercavam-se os outros homens e as outras mulheres,
e o rosto crescia e crescia à medida que se ia dilatando até envolver a roda e ficar girando no ar à velocidade dos pés,
torcendo-se até os ossos fraquejarem e estalarem e irromperem na cabeça,
onde havia outro a lançá-los de arco em riste e outro que corria a recolher para o outro a quem queria agradar.
A todos o mesmo tempo de luz.
E depois dessas pedras outros troncos e outra pedras e outros homens,
tão pequenos como tu,
Com quem eu brincava.
E além,
por baixo da pedra onde se senta aquele rapaz,
há outra cidade com homens que fazem das palmeiras cestas para os frutos,
e trocam feijão por mandioca,
e dormem no chão,
sobre folhas e cascas de árvores?
E atrás dessas pedras outros troncos e outras pedras e homens em festa e depois dessas pedras outros troncos e outras pedras e outros homens com quem ele brinca?
Não sei, minha querida, não sei.
Nunca o vi senão ali, sobre a pedra, maior.
